domingo, outubro 27, 2013

«Dar-me-ei a mim mesmo para vossa salvação»



      Com esta frase com que apresento este texto, podia começar a escrever sobre o próprio Jesus Cristo, ou sobre qualquer um dos grandes homens do nosso passado, mas não. Esta frase faz parte do lema que D. António Baltazar Marcelino, bispo emérito de Aveiro, falecido há duas semanas, escolheu para o seu pontificado na diocese pela qual confessou nutrir um «amor irreversível e incondicional».
       Conheci o D. António quando tinha apenas 7 anos, pela ocasião de uma visita pastoral ao arciprestado de Aveiro, quando visitou a minha escola primária.
      Não me recordo do que disse, mas lembro-me da sua figura marcante, sorridente, mas portentosa e com uma presença forte e que enchia a sala toda.
        Voltei a cruzar-me com ele, poucos anos mais tarde, no arciprestado de Ílhavo, quando visitou a escola do ensino preparatório que eu frequentava e, desta vez, lembro-me de termos sido convidados a fazer uma pergunta ao senhor bispo e, tendo sido dos primeiros a ter oportunidade, lá fiz a pergunta da praxe: Porque é que foi para padre?
        Também já não me recordo da sua resposta, mas estou certo que ela não me satisfez, porque, durante muitos anos, a fiz a mim próprio no sentido contrário e nunca a soube responder até ler um livro de D. Manuel de Almeida Trindade, antecessor de D. António Marcelino, “E porque não eu?».
         Bispos como estes homens que acabei de citar são marcos na história da Igreja e são referências para contar o antes e o depois da nossa diocese. Não são meros transeuntes que cumpriram o seu tempo, são o legado e inspiração de todos quantos os seguiram e a quem eles impeliram a serem discípulos e anunciadores do evangelho.
       Sucedeu-lhes, D. António Francisco dos Santos, a quem Deus confiou o peso das suas cruzes no termo dos seus dias. Ele acompanhou-os até à última morada.
      Quanta dor nos seus olhos, quanto sofrimento no seu semblante… Um bispo que se despede dos seus bispos… com uma inabalável esperança marcada pela sua palavra de gratidão e pela profunda e sentida oferta de si mesmo em todos os momentos de homenagem e oração por eles. Um pastor que não se esconde, nem se afasta da cruz que há-de carregar pela vida, um amigo que sempre nos acolhe, ordenado para servir o povo e a ele dedicado de corpo e alma.
       Com a herança pesada de dois homens que marcaram o passado desta diocese, ele oferece-nos o seu coração, aberto, disponível e fiel.
       Não podemos dizer que a diocese de Aveiro não tenha sido abençoada, que o Espírito Santo não tenha sido determinante nas escolhas que o papa tem feito para esta porção do povo de Deus.
      Se D. António Marcelino se deu todo, realmente, apenas Deus poderá julgar, porque os nossos olhos lavados em lágrimas não são justos juízes. Para nós ele foi um bispo com visão e que acreditava numa diocese com horizontes abertos e preparada para a realidade, mas se se deu por completo para nossa salvação, não sabemos.
       Mas conseguiremos nós dizer se estamos a dar-nos por completo para a salvação da nossa família, dos nossos amigos, da nossa comunidade e de todos aqueles que diariamente cruzam o nosso caminho?             
      Cabe, a cada um de nós, decidir se quer «deixar o mundo melhor do que o encontrou» ou viver o melhor possível com aquilo que nos foi deixado.
     Acredito que António Baltazar Marcelino e Manuel de Almeida Trindade, bispos, estarão, hoje e sempre, junto dos nossos antepassados a olhar por nós.
      Confiado nesta certeza, D. António Francisco tem um barco para conduzir, mas não com destino a nenhum porto, fazendo-se ao largo, com as velas ao vento, navega em direcção ao desconhecido.
       Por Cristo, herdeiros do sermão das bem-aventuranças, seremos capazes de nos fazer ao largo sem «mas» e sem «talvez», seguindo o nosso pastor?
         Somos de Cristo e, portanto, fiéis à Sua vida, lida, rezada e celebrada, vivamos uma só fé, sem exigir uma Igreja que nos faça a vontade, mas fazendo nós a vontade do Pai.

terça-feira, outubro 30, 2012

Lost memories

Longe vão os tempos em que este era um espaço onde me “escondia” e desabafava o que me ia na alma...
Há tanto tempo que não escrevo que já nem sei se me lembro como se faz...
Em tempos este «blog» foi fiel ao nome que lhe dei: «um cantinho para contar qualquer coisa», onde deixava as minhas mágoas e tristezas, angústias e incertezas.... até que tudo isso começou a fazer parte de um passado cada vez mais longínquo e então fiz justiça à premonição que tive quando defini o endereço do «blog»: «memorias-perdidas». Este último muito inspirado no título que o James Horner deu a uma das últimas músicas da banda sonora do filme «Titanic» com o mesmo nome «lost memories». A sua melodia suave, quase “líquida”, faz-nos mergulhar num sossego profundo que nos traz recordações de tempos bons e menos bons, mas que são parte de uma história por nós escrita e que perdurará em nós como tesouro sem preço e ficará como herança para os que nos seguirem.
Mas já passou, realmente, muito tempo desde que alguma coisa me motivou a escrever...

Os tempos mudaram e a espontaneidade da adolescência foi dando lugar a uma maturidade muito frágil que precisou de muitos ajustes, muitas tentativas falhadas da procura da “felicidade absoluta”.

O que nos define é aquilo que nós fazemos e não o que gostávamos de fazer. As pessoas conhecem-nos por aquilo que cumprimos e não por aquilo que dizemos que vamos fazer. Esta última é uma imagem muito política e traz sempre resultados desastrosos para quem assim pensa atingir os seus objectivos.

Muitas vezes não somos felizes com aquilo que temos, nem com o que fazemos e essa desilusão é muitas vezes causa de ruína. Não que nos devamos acomodar sem mais nada e deixar de olhar o horizonte, mas tantas vezes somos insensíveis à realidade que nos rodeia e esquecemos que aquilo que nos é “caro” é tantas vezes inatingível para aqueles que anseiam aquilo que banalizamos. Esquecemos que nada tínhamos quando viemos ao mundo e que nada somos a mais do que aqueles que continuam sem nada. Somos apenas uns manequins que vestimos aquilo que as lojas vendem e os anúncios promovem, mas tantas vezes não temos em nós humanidade suficiente para dar as mãos a quem veste o que já não usamos e come o que deitámos fora.
Desde o meu último «post» que os meus olhos observam o mundo de forma diferente. Os sonhos foram-se realizando e os projectos foram tomando corpo ao mesmo tempo que os objectivos de cada dia se vão cumprindo sustentados num esforço constante por aperfeiçoar o que se faz.

Mas e depois? Deixamos que a ambição desmedida nos conduza a uma insatisfação cada vez maior que nos transforme em pessoas que respeitam cada vez menos os valores humanos e sociais e que não olham a meios para atingir os seus propósitos?
Há muito esquecemos aqueles preciosos momentos de escola primária em que dividíamos o nosso pão com o colega que não tinha, pois a sua mãe não tinha para lhe dar.

Esquecemos o tempo em que jogávamos à bola com ricos e pobres, brancos e pretos, magros e gordos e o que realmente contava era se marcávamos golos ou defendíamos bem. E aí era realmente importante o valor de cada um por aquilo que fazia e não por quem era. Era o capitão aquele que “levava a equipa às costas” e resolvia o jogo num lance de magia e não aquele que lá foi colocado por ser filho deste ou sobrinho daquele. Corríamos campo fora a festejar um golo e éramos, por breves segundos, os melhores jogadores do planeta, melhor que na playstation, melhores que o Figo e o Rui Costa, falávamos daquele golo o resto do dia, íamos para casa, contávamos aos nossos pais e adormecíamos a sonhar com isso. Como era simples ser feliz.
Lembro-me de copiarmos uns pelos outros nos testes e muitas vezes não terminarmos um teste para podermos ajudar o amigo que ainda nem tinha começado. Não olhávamos a regras, nem ao medo de ser apanhado, apenas com o objectivo de valermos ao amigo. Se depois isso era bom ou mau para ele, se conseguia vir a ser um bom estudante, a vida encarregar-se-ia de escolher, mas não seria por nossa causa que ele ia cair.
Nós fazemos muitos cursos, muitos estágios, trabalhamos nas melhores empresas, com os mais graduados quadros nacionais e cada vez estamos mais estúpidos. Mais prepotentes e com a mania de que sabemos tudo.

Nós vivemos num país à beira da bancarrota e continuamos a querer umas férias exóticas, o anel mais bonito da ourivesaria, o carro da moda, a pulseira mais vendida do mercado, o telemóvel da última geração, a casa dos nossos sonhos...

Nós não temos toda a culpa do Estado nos ter governado tão mal ao longo dos anos, das finanças desleixadas que temos, da Europa que nos olha de lado, nem do mundo em que vivemos, mas contribuímos todos um pouquinho para que a nossa sociedade tenha chegado a este ponto.
Nós acedemos à birra do nosso filho que quer uma consola mais evoluída, uma mochila mais bonita, uma bicicleta maior e um telemóvel melhor do que o dos colegas. Acedemos à pressão da nossa mulher para ter isto e aquilo e que vamos de férias para aqui e para acolá porque fulano e sicrano têm e fizeram e aconteceram. E damos por nós a querer passar à frente dos nossos colegas para atingir um lugar mais importante no trabalho que nos permita receber um salário mais condizente com o estatuto social que do qual dizemos ser...

Endividamo-nos, sobreendividamo-nos, perdemos a cabeça e quando vamos ao banco consultar a nossa posição consolidada para saber onde é que nos podemos enterrar um pouquinho mais, somos confrontados com uns absurdos 220 e tal mil euros que são a soma da hipoteca da casa, do crédito para o carro, do cartão de crédito, do descoberto autorizado na conta ordenado e dizem-nos com um sorriso na cara que não temos mais por onde “estrebuchar”.

Vamos para casa desiludidos, entramos numa depressão profunda, discutimos constantemente com a mulher, deixamos de ter paciência para os filhos... Vamos parar à rua com problemas de álcool ou droga e acabamos a traficar e vamos para a cadeia... Quando saímos ninguém quer saber de nós, ninguém nos dá emprego porque não temos boas referências, temos constantes problemas para curar a “ressaca” e tornamo-nos em mais um número a somar àqueles que vivem na rua e são ajudados por instituições de solidariedade.

Num daqueles momentos de lucidez trocamos dois dedos de conversa com um(a) jovem daquelas equipas que distribuem alimentos aos sem-abrigo e contamos-lhe a nossa história na esperança de que ele(a) não tenha o mesmo destino e saiba dar mais valor à vida e às maravilhas que ela só por si lhe proporciona. Que não cometa loucuras e seja feliz com o que consegue à custa do seu empenho e da sua dedicação e não daquilo que consegue através de facilitismos.
Um dia, um dos nossos filhos vai contar a nossa história e dizer que não foi graças ao pai que chegou onde chegou e que se estava à espera dos pais para ter o que tem estava na miséria... Vai se esquecer de tudo o que lhe demos quando era criança e do quanto nos esforçámos para que fosse o puto maravilha lá da turma e tivesse todos os motivos para ter uma elevada auto-estima e condições para atingir o sucesso.
Todos nós podemos evitar isto se, de vez em quando, pararmos um pouquinho e olharmos o mundo como se fosse a primeira vez, olharmos o Homem como se fosse a primeira vez, olharmos o amor como se fosse a primeira vez.

Descobrimos que só nos faz falta o que realmente nos faz felizes. E para isso não precisamos de dinheiro, casas, carros, roupas, nem telemóveis.

Não há pessoa que por mais rica que seja que não precise da água das fontes, do sol que se põe no mar, dos frutos da terra e dos animais do campo para sobreviver. E tudo isto nos foi dado sem que sequer tenhamos pedido. Afinal, que procuramos nós? Ouro no deserto? Luz no fundo do mar? Estamos loucos? Não nos basta aquilo que nos permite viver e conviver? Celebrar a vida e os seus valores humanos e fraternos?

Precisamos de admirar o mundo como ele é, com as maravilhas que só por si nos oferece. Valorizar aqueles que se empenham sem receber nada em troca e segui-los, na esperança de virmos a ser como eles. Precisamos de acreditar em algo e defender essa causa com justiça, dedicação e amor. Precisamos de uma bandeira! Uma pessoa sem valores é como um rio sem direcção, como um pássaro que voa sem rumo...
Ouve-se muito por aí que o mundo precisa de líderes a quem seguir. Eu acredito mais que cada um de nós pode ser um exemplo a seguir se tiver como primeiro e principal lema «dar em si mesmo espaço ao próximo».

quarta-feira, agosto 11, 2010

Somos herdeiros de Deus para toda a eternidade

Vivemos dias de entusiasmo porque mesmo aqui ao lado, o país vizinho, prepara-se para receber um acontecimento incontornável à escala global. O país dos Reis Católicos vai receber as Jornadas Mundiais da Juventude que são já para o ano e a Cruz das Jornadas, entregue aos jovens pelo Papa João Paulo II já se encontra em Portugal.

São os dias da nossa vida. É a história a acontecer mesmo diante dos nossos olhos.

Por estes dias viveu-se também em Fátima mais uma semana memorável. O Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica aconteceu pela 36ª vez consecutiva e certamente a julgar pelos últimos 14 anos, pela 36ª vez deixou saudades, inspirou corações, apaixonou pessoas, perfumou a alma daqueles que a ele se dirigem ansiando um pouco mais de proximidade com o que de melhor se faz em liturgia no nosso país.
É uma semana de encontros particulares e colectivos com Deus, com Jesus Cristo e com a sua esposa que é a Igreja.
Mas também nos encontramos com outros irmãos que buscam a mesma água que mata definitivamente a sede. Com pessoas que de todos os cantos do país se reúnem naquele que para muitos é o Altar do Mundo, vêm de toda a parte para O louvar e aprender a louvá-l’O ainda melhor. Que vêm para rezar em conjunto com os outros irmãos e que dali vão com vontade de rezar ainda mais e com mais paixão.
Partilham-se experiências, opiniões, sonhos, ansiedades, desilusões. Conversamos com aqueles que, efectivamente, falam a “mesma língua” e que nos compreendem.
Mas, no meio disto tudo, não podemos esquecer que estamos a cada minuto que passa a escrever linhas nas já muitas páginas da história deste encontro e da história da liturgia em Portugal e no Mundo. Porque o que fazemos acontecer tem eco por toda a parte através daqueles que testemunham o que lá acontece. E não há, verdadeiramente, melhor forma de promover e divulgar o E.N.P.L. do que o testemunho dos que experimentam aquela vivência que nos deixa absolutamente transfigurados.
Podemos ser considerados loucos pelos que não conhecem, que não acreditam... um pouco à imagem dos Apóstolos que cheios do Espírito Santo anunciaram a Boa-Nova por toda a parte.
Mas não somos loucos, não... Apaixonados! Crentes! Humildes adoradores da Cruz de Jesus Cristo! Esse doce lenho do qual pendeu o maior dom ao Homem dado. Na liturgia celebramos o Seu sacrifício, louvamo-l’O e adoramo-l’O, mas na nossa vida temos de ser exemplo. A força que nos é transmitida pela experiência do contacto com a Jerusalém Celeste quando celebramos os Mistérios Pascais que recordamos em cada Eucaristia é capaz de superar qualquer dificuldade. Principalmente quando vivemos todos estes acontecimentos rodeados de outros que assumem este mesmo sentimento e as mesmas convicções.
Essa força é demonstrada na valentia com que servem sem olhar para trás. E ver que jovens promessas de um mundo que se apresenta tão difícil são tão corajosos e voluntários é também motivo de alegria e regozijo para os que têm a responsabilidade de os guiar.
Este ano foi, seguramente, um dos anos mais trabalhosos para quem foi ao E.N.P.L. motivado pelo serviço da música Litúrgica, mas enganem-se os que acreditam que alguém se desmotivou. Foram horas e horas seguidas de uma entrega extraordinária e que nos ajudou a ser mais Igreja, a ser mais Comunidade. Nos poucos dias que estivemos juntos fomos capazes de viver a solidariedade que muitas vezes não encontramos em comunidades já com tantos anos de experiência e caminho percorrido. Esta certeza de que o caminho é mesmo este e que com estas pessoas vale a pena caminhar é um dom que Deus nos dá através deste maravilhoso Encontro.
Podia destacar alguns momentos onde essa diferença se fez mais notar, mas então estaria a desmistificar o espírito de unidade que foi transversal a toda a semana.
Para quem vive aquele Encontro há tantos anos foi uma lufada de ar fresco, para quem o vive há pouquinho tempo foi, certamente, uma forma clara de cativar e de deixar vontade de lá voltar.
O E.N.P.L. continuará depois de nós assim como continuou em nós depois de outros que já por lá não passam. E é acreditando nisso que caminhamos em direcção à construção de uma Igreja melhor, mais formada, consciente da realidade que enfrenta e tentando perceber a melhor forma de estar no mundo.
Porque “uma só coisa é necessária: procurar o Reino de Deus!” do qual somos herdeiros, pelo Baptismo, para toda a eternidade.

Depois desta semana seguiu-se um encontro com a história, na cidade eterna, Roma, dos mártires e dos santos. Mas contarei numa próxima memória...

domingo, maio 23, 2010

«Não venci todas as vezes que lutei, mas perdi todas as vezes que deixei de lutar»

Nas últimas semanas, a frase que intitula este texto tem-me assaltado o pensamento...

Não é pela descoberta da mesma e nem mesmo pela moral que a envolve... apenas porque me faz pensar nas lutas do dia-a-dia e nos projectos do futuro... e como cada vez as forças são menos para responder a todas as responsabilidades, temos de saber muito bem onde aplicar as energias e de que forma o fazemos.

Quantas vezes partimos para algo com a sensação de que estamos a perder o nosso tempo? E depois ainda ouvimos conselhos/comentários que sustentam a mesma razão... mas por capricho ou por crença acabamos por investir tudo...?

A verdade é que poucas são as coisas que tenham resultados absolutamente garantidos. E essas coisas nós não lhes damos atenção pois não nos provocam interesse...
Por outro lado aquelas que têm insucesso praticamente garantido e provavelmente prejuízos, sejam eles leves ou não, motivam-nos de tal forma que nos empenhamos quase até à exaustão. Claro que ao longo do caminho temos de ir avaliando se continua a valer a pena e não imprimir todas as nossas capacidades desmesuradamente não parando a tempo de poupar alguma coisa de nós próprios. Mas não deixa de ser curioso que só a insatisfação nos complete, só a falta de algo que procuramos incessantemente nos mova e nos anime.

Na semana passada tivemos a sorte, o privilégio e a graça de ter, durante quase quatro dias, no nosso pais o vigário de Cristo, o sucessor de Pedro.
Apesar de tudo o que se escreveu, de todos os discursos e homilias que sua Santidade partilhou connosco, não obstante todo o simbolismo e relevância que tiveram todos os eventos e celebrações promovidos com a presença do Papa, não consigo deixar de reter uma grande conclusão: todos nós queríamos conhecê-lo.

“Afinal é muito afável e carinhoso” diziam uns, “que energia com aquela idade e que coragem para ir até junto das pessoas” admiravam outros.... estávamos todos muito enganados!
Quando há 5 anos recebemos a notícia de que era o Cardeal Joseph Ratzinger o escolhido para suceder ao Papa Peregrino, muitos caímos por terra... a tristeza de perdermos uma das personalidades mais importantes da segunda metade do século XX, aquele que conseguiu promover a paz independentemente da língua, religião ou cor política, que tinha tocado os nossos corações com o pedido de perdão pelos pecados da Igreja e que confessou o homem que o tinha tentado matar, juntava-se à desilusão de não vermos “calçar as sandálias do pescador” alguém que continuasse essa obra e que mantivesse jovem e dinâmica esta Igreja tantas vezes acusada de “velha e ultrapassada”.
Com as acusações de que a Igreja tem sido alvo, encrespámos a nossa indignação pela falta de um Papa que se levantasse, desse um murro na mesa e revolucionasse alguma coisa... Mas não... Bento XVI manteve-se impávido e sereno levando de um lado e do outro, uma e outra vez, vezes sem conta a ver vozes de vários países de grandes responsabilidades mundiais a pedirem a sua cabeça...

Eis que ele se levanta e caminha até nós... vem com aquele sorriso que nos deixa desarmados, com os braços estendidos a acolher-nos e sem cessar acena-nos como se nunca o tivéssemos ofendido. Ao vê-lo mais de perto não vemos, mas apercebemo-nos que ele deu as duas faces, sem hesitar... Carregou e continua a carregar o peso dos crimes de todos e ainda assim não desarma no que toca a defender a Igreja que os seus antecessores apascentam desde São Pedro. Como Pedro, há 2000 anos, ele hoje nos compromete como testemunhas da Ressurreição de Cristo. Somos herdeiros do legado dos apóstolos e responsáveis pelo anúncio da Boa-Nova. Co-herdeiros com Cristo do reino de Deus, não podemos simplesmente voltar a cara para o lado e continuar a vê-lo sozinho a suportar todas as injúrias que dizem contra a Igreja.

Como me disse alguém, o Espírito Santo sabia bem o que fazia naquele dia na Capela Sistina. Deus sabia, se calhar até o próprio Papa João Paulo II, que ele era a pessoa ideal para aceitar esta cruz. Não como quem recebe o reconhecimento de uma vida e que um dia chega a Chefe Máximo da Igreja Católica e finalmente é a ele que todos prestam vassalagem, mas como alguém a quem ainda muito havia a pedir e que muitos caminhos tem de percorrer até que, tal como a Elias, Deus lhe envie o carro de fogo puxado por cavalos de fogo para o levar directamente ao Céu.

Mas Deus também não o deixou órfão! Ele tem-nos todos ao seu redor e daqui em diante, com toda a certeza, mais uma nação inteira pronta a acudi-lo! Nós provavelmente não vamos vencer, por mais que lutemos, haverá sempre alguém que se insurja contra a Igreja, contra todos nós, mas fa-lo-emos até ao último suspiro. Porque como dizia no início, não vencemos todas as vezes que lutamos, mas jamais venceremos se estivermos de braços cruzados à espera que alguém faça.

Em tanta coisa na nossa vida somos levados a desistir só pela força do desânimo provocado pelas poucas hipóteses que temos de ser bem sucedidos. Pelas inúmeras palavras de outros que nos desencantam e que nos abalam a convicção.
É difícil, para alguém que já tem uma história escrita ao longo de vários por um mesmo caminho, chegar àquele momento da vida em que lhe são apresentadas alternativas àquilo que conhece. Fica-se confuso e desnorte leva a que se decida pelo único que conhece com medo da insegurança, risco ou até instabilidade que lhe possam trazer quaisquer outros caminhos.

Os nossos pais foram destemidos, “por mares nunca dantes navegados”, descobrir terras além-mar que apenas eram faladas em histórias de encantar e levaram com eles no peito o coração de um povo que temia não mais os ver. Levaram aquele espírito lusitano de aventura e conquista, mas levaram, à sua frente a Cruz de Cristo. Levaram a doutrina que outrora havia fundado um País, que havia de fundar um Continente e que haveria de se espalhar pelo mundo. Não apenas descobridores, mas missionários. Não só conquistadores, mas também evangelizadores.

Hoje não há mar para desafiar nem terra a descobrir, mas há muitos corações a conquistar, muitas mentes a converter, muitos hábitos a transformar.
Não se admite que num tempo como este, de miséria e de tristeza, numa era em que imperam as tecnologias sobre o afecto, em que as pessoas comunicam com o mundo através da internet e não se dão ao prazer de estar juntas com alguém por uma ou duas horas, que não sobressaia ainda mais a mensagem de amor e caridade que Jesus nos deixou, que S. Paulo levou a todo o lado e que hoje Bento XVI nos trouxe em brandas palavras e suaves gestos.
Da sua boa não se ouviram palavras exigentes, apenas aquilo que é o mínimo que um Cristão deve fazer para sentir Cristo na sua vida.
Não veio em campanha nem sequer para ser aclamado. Timidamente apresenta-se como alguém que, sozinho no meio da multidão, procura o afecto de todos. Veio para nos lembrar os tempos de catequese, os primeiros ensinamentos que nos foram transmitidos quando primeiramente conhecemos Jesus.
É necessário, mais do que nunca, que cerremos fileiras em torno dos valores que nos unem e que sejamos Igreja, com tudo o que isso significa, vivendo de forma apaixonada e dedicada e fazendo uso da força que o Espírito Santo nos dá. Umas vezes venceremos, outras não… mas se nada fizermos, de certeza que nada conseguiremos.

sábado, abril 24, 2010

Num caminho sem saída não se pode voltar atrás

Tenho lido tanta coisa desagradável, nos últimos tempos, na comunicação social que quase não dá vontade de ler nem ouvir mais notícias.

O flagelo que cada vez mais atormenta a Igreja tornou-se regozijo de todos os que de fora criticam e se sentem justificados, como se de alguma forma quisessem que a Igreja pague por todo o mal que lhes acontece ou que existe no mundo.

Ler os comentários feitos pelos que lêem os jornais na Internet provoca uma enorme revolta interior... principalmente por perceber que são feitos por pessoas que não têm Deus no seu coração. Uns vêm de peito feito afirmar com toda a certeza que Deus não existe, outros vêm pôr em causa a Sua existência baseando-se nos pecados dos homens...
São pessoas sem qualquer rigor nem coerência e que vão com a moda. A moda dita que ter fé é característica de pessoas diminuídas, iletradas ou enjeitadas, mas esses colossos da sabedoria, gurus de trazer por casa, são, na sua maioria, pobres almas que pouco sucesso têm na vida e que não se conseguem realizar nem a nível profissional nem pessoal e nem se questionam porquê. Acreditam que viver longe de Deus é a única forma de se sentirem livres, ou pior, vão mais longe e dizem que não acreditar é a verdadeira liberdade.

Pobres ignorantes... vivem no engano de uma liberdade que os aprisiona na eterna dúvida...

Acusam a Igreja dos pecados dos padres... acusam-na de esconder, abafar, ocultar provas e proteger os culpados... como se fosse por vontade da Igreja que todos esses crimes aconteceram.
A cada um pedia que olhasse para si e para a sua família. Que levantasse o dedo acusador todo aquele que nunca teve um familiar que se comportasse incorrectamente, que enveredasse por caminhos mais tortuosos, que até mesmo envergonhasse o seu próprio nome de família.
Será que andariam na praça pública a julgar ou a dizer mal deles? Provavelmente alguns andariam, pois julgam-se perfeitos e donos de toda a moral e verdade, mas muitos não o fariam. Não teriam gosto nenhum em ver o seu nome julgado pelo que outros fizeram. A sua família pagaria pelo erro de alguns... não é justo, pois não? Não é, claro que não. Agora, julgar a Igreja todos podemos porque tem as costas largas e porque dá jeito ter um bode expiatório para tudo o que de mal acontece no mundo.

Alegra-me ver que ainda há muita gente que não se deixa abalar por estes tumultos, gente cuja fé e perseverança se fixam em Jesus Cristo, se fundamentam no amor do Pai, na fidelidade do Filho e na força do Espírito.

Ser Cristão não é sinónimo de resignação. Deus não se resigna com a nossa pobreza ou infelicidade. Vem sempre ao nosso encontro correndo velozmente, não olha a meios para nos defender, protege-nos com todas as suas forças e mesmo assim quando precisa de nós, tantas vezes encontra o nosso coração fechado e o nosso olhar desviado. Qualquer um de nós desistiria de alguém que nos fizesse isso, mas Deus não, continua a velar por nós dia e noite. Mesmo quando o negamos, mesmo quando o ferimos, mesmo quando em Seu nome ou contra Ele fazemos mal aos nossos irmãos.

Todos nós erramos... caímos... desviamo-nos do caminho certo, perdemo-nos... mas temos sempre a possibilidade de nos emendar. Há, efectivamente, muitas coisas que não podem ser corrigidas, algumas até que podemos passar a vida toda a redimir-nos e nunca conseguir apagar.... Mas existe sempre a possibilidade de mudarmos o futuro que se escreverá sobre nós. Ninguém diga que “burro velho não aprende línguas” porque ninguém é absolutamente incapaz de fazer bem aquilo que fez mal toda a vida. Com força de vontade, coragem de espírito e determinação podemos ser aquilo que verdadeiramente queremos.

Mas não podemos acreditar que Deus nos abandonou. É confiando nas suas graças e aceitando com naturalidade aquilo que de bom ou menos bom Ele nos dá que alcançamos a verdadeira paz de espírito.

Encontramos Deus nos lugares mais improváveis e temos de estar atentos. Muitas vezes é precisamente quando entramos num beco sem saída que Ele se nos revela.
Deus na Sua grandeza quer-nos mostrar que podemos seguir em frente, mesmo quando o sinal diz que não tem saída. Deus fez os filhos de Israel atravessarem um deserto interminável até à Terra Prometida, derrubando todas as tribos que se lhes interpunham, derrubou as muralhas de Jerico, fê-los príncipes do Seu reino e sacerdotes do Seu templo. De tal modo os tornou temíveis nas dificuldades que atormentava o coração dos outros povos com a pergunta: “que Deus é este que combate pelo Seu povo?”.

E nós não aprendemos nada. Não nos perguntamos que Deus é este que nos encoraja e nos anima nas dificuldades da vida. Que nos faz surgir um milagre quando todas as esperanças se desvanecem.... Nas vitórias julgamo-nos invencíveis e esquecemos aquele que lutou ao nosso lado para alcançá-la. Nas derrotas sabemos virar os olhos ao céu e perguntar-Lhe que mal Lhe fizemos. Qualquer outra pessoa nos mandaria dar uma curva e na próxima vez ficava impávido e sereno a ver-nos afundar... mas Deus não... quase que inocentemente lá vem mais uma e outra vez atravessar-se por nós.
Diria que, só mesmo, a imensa bondade de Deus pode suportar tão grande ingratidão do Seu povo.
Não somos dignos deste Deus que nos suporta... não merecemos as Suas graças...
Gostaria de propor a todos esses que se aproveitam dos escândalos dos últimos tempos a fazer este exame de consciência. Que tentassem ser tão bons como Ele antes de falarem da Sua Igreja.

Jesus Cristo pediu a Pedro, que o negou 3 vezes no momento mais difícil da Sua vida, “que apascentasse as Suas ovelhas”. Ele não olhou ao tamanho do seu pecado, mas na Sua imensa bondade encontrou nele a fé que moveria montanhas. A fé que iluminaria aqueles que o seguissem, a fé que iria até ao coração do império que dominava o Seu povo e derrubaria os pilares que o sustentavam. Depois pediu a Saulo, que estava determinado a perseguir todos os convertidos e dizimá-los até ao último, que fosse aos confins da terra anunciar a Boa-Nova.

A quem muito se pede muito é dado e Deus retribuiu-lhes, com a eternidade, toda a sua dedicação e todo o sangue que derramaram em Seu nome. Tornou-os pilares inabaláveis da Sua Igreja e sustentou com graças e bênçãos os seus sucessores.
Com certeza, encontraram pelo caminho muitas portas fechadas, muitas ruas sem saída, muitos caminhos sem destino... mas tiveram a coragem de ir em frente, de resistir até ao último suspiro, até ao momento em que deram glória a Deus.

São exemplos estas pessoas que não foram sempre perfeitas, mas mudaram as suas estrelas e puderam no tempo que lhes restou fazer todo o bem que lhes foi possível.

É nisto que a Igreja se funda, na fragilidade humana sustentada e guiada por Deus.

quarta-feira, março 24, 2010

O amor é eterno enquanto dura

Enquanto somos mais novos vivemos num dia as emoções de um ano. Somos capazes de nos apaixonarmos de manhã, casar à tarde e à noite já estar a pensar na vida e em tudo o que iremos perder por causa dessa paixão e todos os medos e incertezas levam-nos a querer terminar algo que nunca chegaremos a saber se teria futuro.

Somos capazes de amar incondicionalmente alguém que nos deixou com o olhar preso num interminável pôr do sol enquanto caminha junto à praia num calmo fim de tarde numa praia quase deserta que acabará por receber-nos na encosta de uma duna no final da noite...

Mas esses amores muitas vezes são destinados a ficar na areia dessas praias... são levados pelo enrolar das ondas e vivem para sempre no mar e estendem-se até ao horizonte para onde tantas vezes ficamos a olhar fixamente durante horas...

Ninguém nasce verdadeiramente livre, pois acaba sempre por se aprisionar a um grande sonho ou a um grande amor. Faz dele o seu objectivo de vida mas condena-se a uma escravidão quase perpétua. Diria que temos propensão para a dependência. Dependemos de outros para sermos felizes, dependemos de coisas para nos sentirmos confortáveis, dependemos de sentimentos para nos sentirmos vivos.

Quando vivemos alguns anos e passamos por várias experiências acabamos por nos transformar em pessoas mais cautelosas para minimizar a impetuosidade com que nos entregamos a causas, a paixões, a sonhos. As desilusões fazem parte da vida, os desgostos de amor também... e tudo isto deixa marcas, cicatrizes, às vezes ainda feridas que doem para sempre. Alguém me dizia no outro dia que não há ninguém que consiga superar um grande amor sem outro amor. Que só assim fechamos a antiga ferida.... Se calhar nem assim, diria eu.
Depois de aberta, a ferida é como uma janela. Podemos mantê-la sempre fechada, vigiá-la para que se mantenha assim. Mas algum dia, um sopro de vento mais forte ou uma pedra arremessada ou ainda o envelhecer da fechadura vai reabri-la... vai colocar a nu a nossa fragilidade e a nossa intimidade. Temos, uns mais que outros, capacidade para superar esse contratempo, acabamos, mais cedo ou mais tarde, por voltar a fechá-la... mas provavelmente não para sempre... Não enquanto existir aquele pôr do sol que nos deixa dormentes... ou aquele perfume no pescoço de outra pessoa que nos desconcerta... ou simplesmente alguém que usa uma expressão ou um riso semelhantes a algo que outrora nos foi tão familiar.

Podemos conhecer alguém em quinze dias e apaixonarmo-nos por ela. Podemos conviver com essa pessoa quinze anos e nunca conseguir dizer-lhe a verdade sobre o que sentimos.
Os amores vivem-se muitas vezes entre paragens de autocarro e bancos de jardim. Revelam-se no cruzamento dos olhares, num cumprimento mais indiscreto ou denunciado. Alguns não chegam a sair das nossas cabeças e são sonhados como ilusões atingindo a condição de platónicos quando nos privamos da possibilidade de os viver. Muitos deles durariam horas ou dias se ousássemos materializar esse desejo.

A vida ensina-nos que os oportunidades que nos são dadas devem ser aproveitadas. Antes voar, cair e incendiar-me do que nunca conhecer a sensação de voar.
Após um relacionamento todos nós precisamos do nosso «luto», daquele tempo de recolhimento e reflexão sobre tudo o que aconteceu, sobre o que correu mal e sobre as causas do insucesso. Mas a seu tempo a vida retoma o seu curso natural e quando damos por ela estamos envolvidos em pensamentos com outra pessoa e sentimos algo esquisito quando nos encontramos com ela. Cabe-nos decidir se queremos deixar quea algo aconteça...

De nada vale lamentarmo-nos, depois, se não for aquilo que pensávamos ou se não somos correspondidos como gostaríamos, porque, a não ser não estejamos no nosso perfeito juízo, não fizemos nada que não queríamos. “O amor é eterno, apenas, enquanto dura”... e não estou com isto a querer banalizar o significado da palavra AMOR que não se extingue no encantamento inicial ou nas primeiras semanas ou meses de relacionamento... é, normalmente, a última coisa a surgir entre duas pessoas e tem de ser algo absolutamente significativo na nossa vida. Mas não há problema nenhum em gostar de alguém «simplesmente» durante algum tempo. Não significa que não tenha sido importante para nós, apenas, ou deixou de fazer sentido ou então simplesmente porque não conseguimos saber se essa pessoa verdadeiramente tem lugar na nossa vida e então temos de deixar cair o nosso egoísmo e deixá-la à vontade para ser feliz com alguém que a queira mesmo ou da forma que melhor achar para si.

Umas vezes somos nós que temos de tomar esta posição, outras vezes tomam outros em relação a nós. Mas de um lado ou do outro, temos de ter o discernimento suficiente para aceitar que tudo na vida tem um fim... E vale mais perceber isso cedo do que mais tarde... a fim de que nunca nos conformemos com meios termos.
Na vida temos de lutar para sermos felizes, mas também devemos querer que aqueles que nos rodeiam estejam igualmente felizes. Não me interessa ser feliz à custa da “meia felicidade” de alguém, assim como não vou permitir que alguém o seja à custa da minha....

Fala-se muito hoje em dia do “não tem de ser tudo como eu gosto... mas convém” ou “poder podia... mas não era a mesma coisa” e é verdade!!! Nós podemos viver com uma pessoa que não amamos, podemos fazer tudo para a fazer feliz... mas vamos morrendo aos pouquinhos... vamos secando, vamos perdendo a alegria de viver os pequenos pormenores e detalhes da vida em troca de um projecto que não nos traz a felicidade total... ainda que seja estável e não nos dê muitas dores de cabeça...

Por isso é que quando me lembro daquela música que canta “amar como Jesus amou” não me vem apenas à memória a pureza do seu amor, a origem e o motivo da Sua entrega, mas como o demonstrou. De uma forma única, absoluta e acima de tudo extraordinária que é a única que sempre quis conhecer... que é sem limites nem inibições, preconceitos ou restrições. É de uma vez para sempre e incondicionalmente. Mas amar assim tem custos, pode-nos custar a própria vida. Mas de que nos vale uma vida inteira sem sentido pesado contra apenas uns anos, talvez meses, dias ou nem que sejam umas horas de verdadeira VIDA?

Nestes dias que nos aproximam dos “dias do Senhor” e depois de uns momentos de paragem na rotina que me permitiram pensar na vida sem ter os afazeres e os problemas do costume para resolver, dou por mim a olhar para as minhas últimas semanas e a questionar se estou realizado... se me sinto mesmo bem encaminhado... se tudo isto faz sentido ou não...

A vida é assim mesmo... de repente tudo está bem e no momento seguinte já nada nos satisfaz...
Mas pelo menos vivemos, o resto não importa!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Feliz Natal para todos vós

Nos tempos que correm, fala-se muito das alterações climáticas, do fim do mundo, da extinção da humanidade, da probabilidade de tudo aquilo que conhecemos desde sempre, assim como os nossos antepassados conheceram, deixar de existir...

Depois, por outro lado, tão atordoados com tanta informação e tanta preocupação, não vemos o óbvio e passamos ao lado da grande salvação e continuamos a encarar o Natal como o “aniversário” de Jesus. Esquecemo-nos que Ele não nasceu há 2000 anos, existia já desde o princípio dos tempos. Apenas habitou entre nós, fez-se mortal para materializar a obra da salvação de Deus.

No Advento, não preparamos a grande festa de aniversário do Senhor, antes a Sua última vinda. Aquela para a qual temos de estar preparados se realmente o anunciado fim se aproxima, caso as políticas mundiais e os comportamentos sociais não se alterem.

Em cada ano, a Igreja chama-nos a preparar esse tempo. De diferentes formas, com campanhas ou temas distintos mas com um único só propósito: abrir o nosso coração para que Aquele que vive e reina para sempre habite definitivamente entre nós. Só assim podemos de forma plena celebrar os mistérios Pascais que em cada Primavera nos fazem renascer para uma vida nova.

Na realidade, se todos vivêssemos em Cristo e o deixássemos “fazer em nós a Sua morada” não nos teríamos de preocupar com o fim do mundo, com as guerras ou com todos os problemas sociais que nos atormentam.

A Sua mensagem é clara e inequívoca. Não precisamos de cimeiras nem tratados, pois isto nos basta: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei». Se mais alguma coisa ficou por dizer, S. Paulo veio acabar com as dúvidas: «A caridade não acaba nunca». O grande mandamento é o amor! S. Paulo interpela-nos ainda dizendo: Se somos filhos, somos também herdeiros e co-herdeiros com Cristo. Logo podemos chamar-Lhe Pai, porque somos todos filhos de Deus, como ele diz na carta aos Gálatas: "Porque somos Filhos de Deus, Ele enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho que em nós clama: «Abbá, Pai!»"
Amemo-nos como irmãos porque somos todos filhos do mesmo Pai. É difícil percebermos isto?

Se nos amarmos uns aos outros seremos uma nova humanidade, realmente haveria uma mudança radical no planeta, o mundo tal qual o conhecemos daria lugar a um só povo, uma só nação. Não precisamos todos de ser cristãos para nos amarmos, para nos respeitarmos. De diferentes formas fala Deus ao Seu povo e nem sempre é reconhecido como Deus, mas todos os que cumprem os Seus mandamentos, ainda que no silêncio do seu coração não o percebam, permanecem no Seu amor.

Se todos acreditássemos nas palavras de Jesus quando subiu aos céus - «Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos» -, se seguíssemos os Seus passos que nos levam à casa do Pai, não seria preciso Advento nem Natal. Viveríamos todos os dias como a manhã de Páscoa porque saberíamos que Ele está connosco.

Então, como isto não acontece, continuamos a clamar «Maranathá, Maranathá!», e a pedir aos céus que façam chover o Justo, que o senhor Jesus desça ao mundo para trazer a paz de Deus. Para no Dia Santificado cantarmos: «Ergue os teus olhos a Luz surgiu, hoje nasceu o nosso Deus. Dias de paz amanheceram, hoje nasceu o nosso Deus!»

Então que Ele nasça mesmo no coração de todos. Que o Verbo habite entre nós e nos faça estender toda esta mensagem de solidariedade, caridade, alegria e boa vontade por todos os dias da nossa vida.

A todos um Santo e Feliz Natal junto daqueles que mais amam e junto daqueles que vos fazem sentir queridos.