domingo, outubro 27, 2013

«Dar-me-ei a mim mesmo para vossa salvação»



      Com esta frase com que apresento este texto, podia começar a escrever sobre o próprio Jesus Cristo, ou sobre qualquer um dos grandes homens do nosso passado, mas não. Esta frase faz parte do lema que D. António Baltazar Marcelino, bispo emérito de Aveiro, falecido há duas semanas, escolheu para o seu pontificado na diocese pela qual confessou nutrir um «amor irreversível e incondicional».
       Conheci o D. António quando tinha apenas 7 anos, pela ocasião de uma visita pastoral ao arciprestado de Aveiro, quando visitou a minha escola primária.
      Não me recordo do que disse, mas lembro-me da sua figura marcante, sorridente, mas portentosa e com uma presença forte e que enchia a sala toda.
        Voltei a cruzar-me com ele, poucos anos mais tarde, no arciprestado de Ílhavo, quando visitou a escola do ensino preparatório que eu frequentava e, desta vez, lembro-me de termos sido convidados a fazer uma pergunta ao senhor bispo e, tendo sido dos primeiros a ter oportunidade, lá fiz a pergunta da praxe: Porque é que foi para padre?
        Também já não me recordo da sua resposta, mas estou certo que ela não me satisfez, porque, durante muitos anos, a fiz a mim próprio no sentido contrário e nunca a soube responder até ler um livro de D. Manuel de Almeida Trindade, antecessor de D. António Marcelino, “E porque não eu?».
         Bispos como estes homens que acabei de citar são marcos na história da Igreja e são referências para contar o antes e o depois da nossa diocese. Não são meros transeuntes que cumpriram o seu tempo, são o legado e inspiração de todos quantos os seguiram e a quem eles impeliram a serem discípulos e anunciadores do evangelho.
       Sucedeu-lhes, D. António Francisco dos Santos, a quem Deus confiou o peso das suas cruzes no termo dos seus dias. Ele acompanhou-os até à última morada.
      Quanta dor nos seus olhos, quanto sofrimento no seu semblante… Um bispo que se despede dos seus bispos… com uma inabalável esperança marcada pela sua palavra de gratidão e pela profunda e sentida oferta de si mesmo em todos os momentos de homenagem e oração por eles. Um pastor que não se esconde, nem se afasta da cruz que há-de carregar pela vida, um amigo que sempre nos acolhe, ordenado para servir o povo e a ele dedicado de corpo e alma.
       Com a herança pesada de dois homens que marcaram o passado desta diocese, ele oferece-nos o seu coração, aberto, disponível e fiel.
       Não podemos dizer que a diocese de Aveiro não tenha sido abençoada, que o Espírito Santo não tenha sido determinante nas escolhas que o papa tem feito para esta porção do povo de Deus.
      Se D. António Marcelino se deu todo, realmente, apenas Deus poderá julgar, porque os nossos olhos lavados em lágrimas não são justos juízes. Para nós ele foi um bispo com visão e que acreditava numa diocese com horizontes abertos e preparada para a realidade, mas se se deu por completo para nossa salvação, não sabemos.
       Mas conseguiremos nós dizer se estamos a dar-nos por completo para a salvação da nossa família, dos nossos amigos, da nossa comunidade e de todos aqueles que diariamente cruzam o nosso caminho?             
      Cabe, a cada um de nós, decidir se quer «deixar o mundo melhor do que o encontrou» ou viver o melhor possível com aquilo que nos foi deixado.
     Acredito que António Baltazar Marcelino e Manuel de Almeida Trindade, bispos, estarão, hoje e sempre, junto dos nossos antepassados a olhar por nós.
      Confiado nesta certeza, D. António Francisco tem um barco para conduzir, mas não com destino a nenhum porto, fazendo-se ao largo, com as velas ao vento, navega em direcção ao desconhecido.
       Por Cristo, herdeiros do sermão das bem-aventuranças, seremos capazes de nos fazer ao largo sem «mas» e sem «talvez», seguindo o nosso pastor?
         Somos de Cristo e, portanto, fiéis à Sua vida, lida, rezada e celebrada, vivamos uma só fé, sem exigir uma Igreja que nos faça a vontade, mas fazendo nós a vontade do Pai.

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