As Sandálias daqueles que partiram...
Caminhando pela praia, encontrei as sandálias daqueles que um dia ousaram atravessar o mar sem medo. Que abandonaram tudo e destemidamente procuraram uma nova margem, um novo pôr do sol do outro lado do mar... Imaginei as histórias, as vidas que as suas sandálias teriam para contar, os caminhos para onde as suas pégadas me levariam. Então sentei e conversei com elas. Falaram-me de sonhos esquecidos nas profundezas dos corações dos seus donos. Relatos de desventuras sofridas, de desgostos passados e da esperança de um novo mundo. Perguntaram-me o que me prendia, o que me fazia não seguir o exemplo daqueles que deixaram tudo. Não soube responder. E apesar de arder no meu peito um fogo que me impelia à aventura, encontrei sempre um peso enorme nas minhas sandálias. Resolvi partir dali... As lembranças de saudosas vitórias eram aos poucos lavadas por lágrimas de um passado por realizar. Não queria que as minhas sandálias fossem condenadas a contar também a outros os infortúnios do seu dono...